O Culto de Hórus


No panteão egípcio, existem várias divindades que se manifestam sob a forma de falcão. Hórus, dono de uma personalidade complexa e intrincada, foi a mais célebre de todas elas. Mas quem era este deus, em cujas asas se reinventava o poder criador dos faraós?


Antes de mais nada, Hórus representa um deus celeste, regente dos céus, cuja identidade é produto de uma longa evolução, no decorrer da qual Hórus assimila as personalidades de múltiplas divindades. Era um Deus celeste e uma manifestação do poder do Sol. Era portanto, um Deus solar que pairava sobre o Horizonte. Assim o Deus ficou conhecido desde a primeira dinastia como “HORAKHTI “(Hórus do Horizonte) ou da "Terra do nascimento do Sol". “Senhor das duas Terras, sob cujas asas está o circuito do céu, o falcão que irradia luz dos seus olhos": era exatamente com essas palavras que, no tempo dos Ptolomeus, descrevia-se Hórus, o deus dos espaços aéreos identificado com o faraó. Hórus era o protetor da monarquia. O faraó era a encarnação de Hórus.


Durante o Antigo Império ( 2575 a 2134 a.C.), o deus-Sol era adorado como pai legítimo do faraó reinante, criador de todas as leis e entidade de quem emanava toda a autoridade visível. O Deus-Sol governava nos céus como um soberano divino, contrapartida celestial do faraó. Hórus, representado pelo falcão, era o deus do céu, um símbolo da realeza divina e o protetor do faraó reinante. Hórus era um deus vinculado à realeza e que protegia os faraós, cujo centro de culto era Hieracômpolis. Desde o Antigo Império, o faraó era a manifestação de Hórus na Terra, ainda que ao morrer transformava-se em Osíris. Durante o Novo Império, Hórus foi associado ao deus- Sol Rá, como “Ra-Horakty”. Faz parte principal da “Grande Enéada” e da tríade Osiriaca: Osíris, Ísis e Hórus.


Porém, conforme foi dito anteriormente, Hórus foi imortalizado através de diversas representações, surgindo por vezes sob a forma solar, enquanto filho de Atum- Ré ou Geb e Nut ou apresentado pela lenda osírica, como fruto do amor entre Osíris e Ísis, abraçando assim diversas correntes mitológicas, que se fundem e completam em sua identidade. Em resumo, alguns detalhes e característica do deus Hórus foram alterados ou mesclados com outros deuses ao longo das várias dinastias, seitas e crenças egípcias. Por exemplo, quando Heru (Hórus) se funde com Rá, o deus- Sol, ele se torna “Ra-Horakhty”.


O culto do deus falcão dispersou-se em muitos sub- cultos, o que criou inúmeras lendas e versões do popular deus, como por exemplo, a denominada “Rá- Horakhty”. Em certa época, o Deus-Sol era visto como o criador do Egito e do Sol, Rá, era chamado o primeiro rei do Egito. Os egípcios viam o Sol como uma força viva e está subentendido em sua teologia que Rá abriu mão do governo do Egito, entregando-o a outros deuses, em primeiro lugar a Hórus, que encarnava, segundo se acreditava, no faraó.


O culto do deus-sol Rá predominava em Heliópolis, localizada ao norte da atual cidade do Cairo. O deus era concebido como o próprio Sol, na forma de um disco. Na capital, em Mênfis, os faraós passaram a ser influenciados pelo culto solar e o resultado foi a fusão do deus-celeste Hórus com o deus-sol Rá. Na época da Quinta Dinastia, o faraó, agora identificado com Hórus, passou a ser o “Filho de Rá”. Nos tempos primitivos, desenvolveu-se em Heliópolis o conceito segundo o qual a mais pura forma do deus-sol não se encontrava em Hórus de cabeça de falcão, mas no orbe físico do próprio sol, que era designado pelo nome de Aton; assim, Rá e Aton passaram a ser considerados como a mesma forma do Sol. O símbolo para este, naquele período específico, era um homem com cabeça de falcão e coroado pelo disco solar, cercado pelo Uraeus(naja). Com o nome de "Hórus do horizonte", assume uma das formas do Sol, a que clareia a Terra durante o dia. Mantedor do Universo e de todo tipo de vida, Hórus era adorado em todo lugar. Ele é considerado um dos mais importantes de todos os deuses, aquele que guia as almas até o “Duat” (Reino dos Mortos).


Sincretismo


O culto de Hórus adaptou-se ao mito de Osíris, numa tentativa de sincretismo religioso, sendo muitos os deuses que se identificaram e fundiram com Hórus em diversas localidades egípcias. Quando representado por uma cabeça de falcão, estabelecia-se uma identidade com Hórus, outro deus solar adorado em várias partes do país desde tempos remotos. Esse nome é derivado da antiga palavra egípcia hr (her), a qual em sua forma mais primitiva era a preposição “acima ou sobre”, pois Hórus, o falcão, pairava acima de todo o país e de seus habitantes e era o símbolo natural do rei que reinava sobre todo o Egito. Hórus aparecia em muitas formas, sendo representado como:


Hórus solar:



Harmajis, Hor em ajet, "Hórus no horizonte", Sol nascente
Horjentijet, Hor jenti jet, "Sol da manhã".
Haractes, Hor ajti, "Hórus no horizonte", fundido com Rá, como “Rá-Horakhti”,” Sol do meio dia”.
Hor Iabti, "Horus do Oriente", semelhante a Horakhti.

Em Heliópolis, Kepri, Rá-Horakhti e Atum são três formas da mesma divinidade que simbolizam o Sol nascente, o do meio dia e o Sol poente.



Hórus menino:



Harsiase, Har sa Aset, "Hórus, filho de Ísis" e Osíris.
Harsomtus, Hor sema tauy, "Hórus, unificador das Duas Terras", como filho de Hathor e Hórus em Edfu.
Harpra, Har pa Ra, "Hórus, o Sol" em Coptos.
Panebtauy, Pa neb tauy, como filho de Haroeris.
Harpócrates, Hor pa Jard, "Hórus, o menino", que assimilou a Harsiase e Harsomtus.
Ihy, assimilado a Harsomtus e Harpócrates.

Hórus adulto:



Haroeris, Her Ur, "Hórus, o velho", "Hórus, o Grande", irmão de Osíris e Seth. Supremo deus do Alto Egito. Seus diversos aspectos eram:

Hórus Behedety, Hor Behutet, "O que é originário de Behedet", venerado em Edfu.
Horjenti-Irti, Hor ur jent ar ti, o "Senhor de seus olhos".
Horsemsu, Hor Semsu, filho de Nut, ou de Osíris e Ísis.
Hormerty Hor Merty, "Hórus, o dos Dois Olhos".
Harendotes, Hor nedy her atef, "Hórus, o vingador de seu pai".
Hartomes, Hor tema a, outra forma de Harendotes.
Hornejeny Hor Nejeny, "Hórus, o que é originário de Nejen".
Horpanebtauy, Hor pa neb tau, "Hórus, Senhor das duas Terras".

Também como:



Hor duat, "Hórus de Duat", "Senhor das estrelas circumpolares".
Hor imy shenut, "O que está em Shenuet".
Hor hery uadyef, "Senhor dos espíritos de Pe" (Buto).
Horus Iunmutef, sacerdote nos ritos funerários.

Hórus também foi associado a dois planetas:



Hor up shet, Júpiter.
Hor p cá, Saturno.

Hórus foi cultuado sob várias formas, sendo que devemos distinguir o “Hórus solar” do “Hórus , filho de Osíris e Ísis”. Assim temos:


Hórus Solar



1- Em Heliópolis, como Harakhti , “Hórus no horizonte” , era a manifestação do Sol ao surgir e se pôr. Muitas vezes identificado com Rá, quando passava a se chamar “Rá-Horakhti”. Representado como um homem com cabeça de falcão ou simplesmente como um falcão.


2 - Como “Hórus de Edfu”, era adorado nessa cidade, onde tinha um importante centro de culto já que o local era tido como o palco da vitória dele sobre Seth. Aparecia como um homem com cabeça de falcão ou como um falcão, e também representado por um disco solar provido de asas de falcão, figura que era talhada nas portas de muitos templos.


3 - Em Letópolis era cultuado como “Haroéris — Hórus, o antigo, o velho ou o primogênito” , a divindade que lutou contra Seth, o deus do mal. Representado como um falcão, ou como um homem com cabeça de falcão e o disco solar sobre ela, era o protetor do faraó por excelência.


Hórus, filho de Osíris



1 - Em Heliópolis essa divindade era adorada também sob outra forma. Recebia o nome de “Heru-pa-khret”, palavra egípcia que significa “Hórus, o menino”, e que os gregos traduziram para “Harpócrates”, identificando-o com uma divindade do silêncio. Tratava-se de uma forma tardia de Hórus no seu aspecto de ser o filho de Ísis e Osíris quando criança e fazia parte da enéade daquela cidade, tendo sido cultuado em muitos santuários do país. Nesse caso é representado por uma criança nua, usando a coroa dupla do faraó ou um penteado infantil com tranças e chupando o dedo. Muitas vezes é retratado sendo amamentado por Ísis ou por Hathor. Também podia ser identificado com o deus-Sol que renascia a cada manhã, sendo, então, mostrado a emergir de uma flor de lótus que flutua sobre as águas celestiais.


2 - Sob o nome de” Harsiese” era encarado especificamente como filho de Ísis, o vingador de Osíris e protótipo do filho obediente. Nesse caso era representado como um homem com cabeça de falcão, usando a coroa dupla dos faraós. É igualmente como membro desta tríade que Hórus saboreia o expoente máximo da sua popularidade, sendo venerado em todos os locais onde se prestava culto aos seus pais.


Vejamos agora em maiores detalhes a história e as características das diversas formas de Hórus.


A Lenda de Hórus, o Antigo



Em tempos muito remotos, os egípcios cultuaram um deus chamado Hórus, simbolizado pelo falcão, que parece ter sido a primeira coisa viva que eles adoraram , ao qual deram o título de “Senhor da luz e do Céu”. Seu olho direito é o Sol e o esquerdo, a Lua. Essa divindade era o deus-Sol, da mesma forma que Rá e, em épocas mais recentes da história egípcia, acabou sendo confundido com Hórus, filho de Ísis e Osíris.


Era especialmente cultuado em Letópolis, de onde era originário, onde recebia o nome de “Horjenti Irti”, significando “ Hórus que governa com os dois olhos”, e também era conhecido como o “Senhor do Sol e da Lua”.


Outros de seus nomes, dependendo da região do culto, foram: “Hor Merti”, ou “Hórus dos dois olhos”, sendo então representado segurando nas mãos os olhos Uedjat ou o Uraeus;


“Mekhenti-en-irty, ou “ Aquele em cuja face não há olhos”, nome que lhe era atribuído nas noites sem luar, ou seja, quando tanto o Sol quanto a Lua estavam ocultos, sendo nesse caso considerado o patrono dos cegos,
E” Hor Nubti”, ou seja, “Hórus, vencedor de Seth”, entre outros.
Seu nome mais usual, entretanto, era “Hor Ur”, que os gregos traduziram para “Haroéris” e que significa “Hórus, o Antigo, Hórus, o Velho, ou Hórus, o Primogênito”.


Era representado por um falcão ou por um homem com cabeça de falcão e o disco solar sobre ela. Às vezes aparece usando a coroa branca do Alto Egito. É ele o pai de Qebehsenuf, Duamutef, Hapi e Imset, os quatro filhos de Hórus, que eram as quatro divindades que protegiam as vísceras dos mortos acondicionadas nos vasos canopos. Considerado como o protetor do Alto Egito e do faraó por excelência, participava da cerimônia de coroação do rei e da festa de renovação do vigor (ka) faraônico.


Segundo o filósofo grego Plutarco, a lenda conta quer Nut primeiro deu à luz à Osíris. No segundo dia nasceu Haroéris; no terceiro dia veio ao mundo o deus Seth, lançando-se através do flanco materno, que abriu e rasgou dando-lhe um terrível golpe; no quarto dia foi Ísis que nasceu e no último dia nasceu Néftis. Antes mesmo de nascerem, Ísis e Osíris, enamorados um do outro, uniram-se dentro do ventre de Nut e dessa união nasceu Haroéris. Assim, esse deus seria filho de Ísis, nascido dentro do ventre de Nut a qual, por seu turno, deu-lhe à luz pela segunda vez. Desta maneira, Haroéris é filho de Nut e, portanto, irmão de Ísis e Osíris, ao mesmo tempo em que é filho de Ísis e Osíris. Em outra concepção teológica, Haroéris ocupa a posição de filho ou de esposo da deusa Hathor, a grande deusa do céu.


Por ser um deus guerreiro e que lutou contra Seth, relatam os “Textos das Pirâmides”, que numa das fases dessa batalha Haroéris morre e, então, se converte em Osíris. Por outro lado, da união póstuma de Ísis e Osíris nasceu um novo Hórus, filho de Ísis, cujo nome era “Harsiese”.


No mito que narra a grande luta entre Hórus e seu irmão Seth pela sucessão ao trono do Egito, conta-se que os olhos de Hórus foram arrancados e posteriormente recuperados. Tal mito foi transferido sob vários aspectos para Hórus, filho de Osíris, e na nova versão, então, Hórus oferece um de seus olhos a seu pai, como símbolo de vida, retomando apenas um dos olhos para si mesmo.


A Lenda de Hórus de Edfu



Hórus era adorado em Edfu sob uma forma diferente: um disco solar provido de um grande par de asas de falcão. A lenda diz que no reinado de Rá, não o deus-Sol, mas um rei primitivo do Alto e Baixo Egito, as tropas reais estavam na Núbia quando o soberano foi informado de que havia uma conspiração contra ele no Egito. Parecia que os conspiradores estavam sendo ajudados por forças malignas ou talvez fossem demônios cujo líder era Seth. O rei navegou pelo Nilo em direção ao norte e, ao chegar a Edfu, ordenou a seu filho Hórus que combatesse o inimigo. Hórus voou pelo firmamento, tomando a forma de um disco solar com asas e, ao avistar o inimigo, desceu voando para o ataque. Inflingiu tantos danos aos rebeldes que eles fugiram. Como recompensa por essa proeza, o rei conferiu ao seu filho o título de Hórus de Edfu.


Porém, os inimigos ainda não estavam derrotados. Transformaram-se em crocodilos e hipopótamos e atacaram o barco de Rá. Novamente Hórus e seus seguidores venceram os adversários, atingindo-os dentro do barco. Assumindo novamente a forma de um disco solar alado e permanecendo estacionado na proa da embarcação, Hórus perseguiu os sobreviventes por todo o Egito, infringindo-lhes terrível derrota. Ele degolou Seth na frente de Rá e arrastou-o pelos pés por todo o Egito. O disco alado é uma personificação do próprio conceito de vitória, já que as asas são um antigo símbolo de liberdade e o Sol representa o poder do deus Rá.


Na segunda parte desta lenda, os personagens mudam um pouco, pois Hórus, o filho de Rá, é substituido de forma confusa por Hórus, o filho de Osíris. O líder dos adversários continua sendo Seth, renascido e, agora, inimigo de Osíris. Seth assume a forma de uma serpente e a luta prossegue por todo o Baixo Egito até atingir as fronteiras da Ásia. Hórus toma a forma de um cajado com uma cabeça de falcão e uma ponta triangular em forma de lança e, novamente, sai vencedor. Para garantir sua vitória, ele navega em direção ao sul, até o Alto Egito, para pôr fim a uma outra rebelião. Como recompensa por esse triunfo, Rá decreta que o disco solar alado deve ser colocado em todos os templos e santuários de todas as divindades como proteção contra os inimigos.


Essa divindade ficou conhecida como “Hórus de Edfu” ou “Hórus de Behdet “(Heru-Behdety, em egípcio), por ter sido cultuada nas duas cidades, nas quais templos foram erguidos em sua honra. Edfu, cujo nome egípcio antigo era Mesen, situava-se no Alto Egito e os gregos, tendo associado o Hórus de Edfu ao seu deus Apolo, deram nome de Apolonópolis Magna à cidade. Nela o deus fazia parte de uma tríade, tendo Hathor como esposa e Harsomtus como filho. No Alto Egito Hórus também era adorado na antiga Nekhen, a “Cidade do Falcão”, a Hieracômpolis dos gregos e atual Kom el-Ahmar.


Por sua vez, Behdet situava-se na região ocidental do delta nilótico. Seu nome atual, Damnhour, deriva da antiga palavra egípcia dmi- Hor e significa “Cidade de Hórus”. Behdet se tornou popular através de Aleister Crowley numa pobre tradução do nome como " Hórus de Hadit", que parecer ter sido um modo de descrição da onipresença de Hórus.


A forma mais usual de representação da divindade era a de um disco solar alado colocado sobre as portas de seus santuários. Alternativamente era mostrada como um falcão pairando sobre o faraó nas cenas de batalha, com as garras segurando o mangual da realeza e o amuleto símbolo da vida eterna(ankh, conhecida como cruz ansata ). Ainda pode aparecer como um homem com cabeça de falcão usando a coroa dupla, ou como um falcão, também com a dupla coroa. Um de seus símbolos é o cajado com cabeça de falcão com o qual o deus Seth foi destruído.


A Lenda de Hórus, o menino



Plutarco conta que Hórus era um bebê prematuro, e recebeu o nome de “Harpócrates”. De fato, em Heliópolis o deus Hórus recebia o nome de “Heru-pa-khret”, palavra egípcia que significa “Hórus, o menino”, e que os gregos traduziram para Harpócrates. Tratava-se de uma forma tardia de Hórus no seu aspecto de filho de Ísis e Osíris.


Quando criança, fazia parte da enéade daquela cidade, tendo sido cultuado em muitos santuários do país. Nesse caso é representado por uma criança nua, usando a coroa dupla do faraó, ou um penteado infantil com tranças, e chupando o dedo. Os gregos o imaginaram com o dedo sobre a boca, isto é, ante os lábios, o que fazia dele uma divindade da discrição e do silêncio. Nesse caso simbolizava o estado débil do pensamento do homem o qual, ante os deuses, nunca passa de uma criança. O melhor que o ser humano pode fazer é adorar as divindades em silêncio. Esse sinal, o do silêncio (colocando-se o dedo indicador da mão direita sobre os lábios), já era um sinal utilizado nos templos egípcios simbolizando a iniciação pelo silêncio para um contato com Num, as águas primordiais da vida, através da quietude interna. Era um sinal sempre feito nos templos antes de se iniciar toda toda prática, por mais simples que esta pudesse ser.


Harpócrates muitas vezes é retratado sendo amamentado por Ísis ou por Hathor. Ambas amamentaram-no e criaram-no justamente para que pudesse vingar-se de seu tio Seth, o rei mau do Alto Egito que matara seu pai Osíris.


Também podia ser identificado com o deus-Sol que renascia a cada manhã, dissipando as trevas, sendo então, mostrado a emergir de uma flor de lótus que flutua sobre as águas celestiais. Ele simbolizava a incessante renovação da vida, a eterna juventude, tudo aquilo que perpetuamente renasce devido às alternâncias da vida e da morte. No Período Tardio (712 a 332 a.C.), essa divindade tornou-se bastante popular e aparecia representada como uma criança nua em pé sobre um crocodilo, tendo nas mãos cobras e escorpiões. Ficou, então, conhecido como um deus com poder de curar as pessoas que tivessem sido mordidas por cobras ou picadas por escorpiões. Ainda podia personificar, segundo alguns autores, os germens que começam a brotar, já que seu pai era uma divindade agrária, ou o Sol debilitado do inverno.



A Lenda de Hórus, filho de Osíris e Ísis



O deus que recebia o nome de “Harsiese” era encarado especificamente como o filho da deusa Ísis. Sua designação na língua egípcia era “Horu-sa-Aset”, que significa exatamente “Hórus, Filho de Ísis”. Às vezes também era denominado “Hórus, o Jovem”, para distingui-lo de “Hórus, o Antigo”.


Harsiese era o adulto no qual se transformara a criança a qual Ísis deu à luz após a morte de Osíris. Como um herdeiro real que chegou para reclamar a usurpação do trono, ele vingou a morte de seu pai derrotando o deus Seth e tornou-se o deus da ordem e da justiça, em contraposição ao seu oponente que representava o caos. Assim sendo, todo faraó era uma encarnação dessa divindade, o Hórus na Terra, o soberano do Alto e do Baixo Egito. Essa divindade era representada na forma de um homem com cabeça de falcão, usando a coroa dupla do faraó.


Quando Hórus nasceu, sua mãe invocou sobre ela a ajuda de todos os deuses, ensinou-lhe a magia e o respeito à memória do pai. Hórus cresceu e, diziam os egípcios, “como o Sol nascente, seu olho direito era o Sol, o esquerdo a Lua” e ele próprio era um grande falcão que cortava os céus.


O Culto de Hórus



Conhecido desde a época predinástica, é provável que seu culto tivesse origem no delta do Nilo, ainda que foi venerado em todo o Egito com importantes templos em Hieracômpolis, Edfu e Letópolis. Foi venerado como:


Harendotes (“Hor nedy her atef”), em Hieracómpolis, Abidos, Letópolis, Buto e Panópolis.
Harpócrates (“Har pa Jard”), em Heliópolis, Edfu, Tebas, Coptos, Mendes, Hermontis e Atribis.
Harpara (“Har pa Ra”) em Hermontis, Medamud e Coptos.
Haroeris(“ Her Ur”), em Letópolis, Abidos, Panópolis, Kom Ombo e Kush.
Harsiase (“Har sa aset”), em Buto.
Harsomtus (“Hor sematauy”), em Dendera, Edfu e Heracleópolis.
Horajty (“Hor ajty”), em Heliópolis, Letópolis, Abu Simbel, O Derr, e Amada.
Horbehedeti (“Hor Behedeti”), em Edfu, Damanhur, Tell-Balamun, File, Mesen e Tânis.
Horhekenu(“ Hor Hekenu”), identificado com Nefertum, em Mênfis e Bubastis.
Horimyshenut (“Hor imy shenut”), em Soagh, Dajla, Jarga, Filae, Questul e Meroe.
Hormenu(“ Hor menu”), em Letópolis.
Hornebmesen (“Hor neb mesen”), similar a “Hor Behedety”, em Buto e Mesen.
Hornejeny (“Hor Nejeny”), em Hieracômpolis.
Horpanebtauy (“Hor Pa neb tauy”), em Edfu.
Hortehenu (“Hor Tehenu”), nas zonas limítrofes com Líbia.
Jonsu Hor, em Tebas.

O culto a Hórus foi expresso de diversas maneiras pelas províncias egípcias.



Seu culto estendeu-se pelo Mediterrâneo, como Harpócrates, vinculado a sua mãe, a deusa Ísis. Destaca-se a veneração na Antiga Grécia, tanto na forma de falcão, como de menino acompanhado de Ísis, ou como amuleto protetor relacionado com a divinidade, o chamado "Olho de Hórus". Hórus originalmente era um deus do sul do Egito. Mas suas manifestações foram adoradas em várias cidades do Egito. No entanto, ele foi particularmente venerado em Edfu, onde no período ptolomaico foi construído um grande templo em sua honra, e onde saboreou uma estrondosa popularidade.


Originalmente, Hórus era um deus local de Sam- Behet (Tell el- Balahun) no Delta, Baixo Egito. O seu nome, Hor, pode traduzir-se como “O Elevado”, “O Afastado”, ou “O Longínquo”. Todavia, o decorrer dos anos facultou a extensão do seu culto, pelo que num ápice o deus tornou-se patrono de diversas províncias do Alto e do Baixo Egito, acabando mesmo por acoplar a identidade e o poder das divindades locais, como, por exemplo, “Sopedu” (em zonas orientais do Delta) e “Khentekthai” (no Delta Central). Finalmente, integrou a cosmogonia de Heliópolis enquanto filho de Ísis e Osíris, englobando diversas divindades cuja ligação remonta a este parentesco. O Hórus do mito osírico surge como um homem com cabeça de falcão que, à semelhança de seu pai, ostenta a coroa do Alto e do Baixo Egito.


Hórus também teve um importante centro de culto na cidade pré-dinástica de Hieracômpolis. Nekhen, a Hieracômpolis dos gregos, teve um deus falcão como sua divindade local e o nome da cidade significa justamente “Cidade do Falcão”. Em Tânis, arqueólogos encontraram esqueletos de falcões dentro de pequenas jarras.


O Templo de Edfu



A cidade de Edfu assumiu grande papel em todas as épocas da história do Egito Antigo. Além da sua posição estratégica como paragem imponente situada na rota das caravanas antigas que une o vale do Nilo e as minas do deserto, foi um grande centro comercial e cultural no sul do Egito, foi a sede do culto de Horús de Pehedt, portanto foi conhecida como “a cidade de Horús”, e na época greco-romana foi conhecido como "Apolonopolis Magna" a grande cidade de Apolo, quando o deus falcão Hórus foi igualado pelos gregos com o deus Apolo.


O templo de Hórus, em Edfu, é um dos mais belos e mais bem conservados templos do Egito Antigo, situado a certa distância da parte sul de Luxor e do Vale dos Reis, construído por Ptolomeu III e Ptolomeu IV, por volta de 100 a.C. Acredita-se que um templo da Terceira Dinastia existisse originariamente no local.


O templo de Hórus é um dos mais novos do Egito. Levou mais de duzentos anos para ser construído, em Edfu. O templo de Edfu tem um hipostilo e um santuário, além de numerosas figuras, inscrições e hieróglifos gravados em relevo. Nas paredes estão representadas as lutas do deus Hórus com seus inimigos, caracterizados de crocodilos e hipopótamos. Uma cena, numa das paredes, mostra o faraó ajoelhado diante de Hórus. Bem acima da entrada para o primeiro átrio, na fachada do pilone, encontra-se em relevo um belo disco solar, com as asas abertas do falcão. Acredita-se que foram os faraós da Quinta Dinastia, por volta de 2400 a.C., que introduziram o disco solar alado com o Uraeus (naja), de cada lado. O disco solar era o de Rá, ou Aton. As asas eram de Hórus. Como o templo de Edfu é dedicado a Hórus, há em ambos os lados da entrada do templo, bem como no pátio, grandes estátuas, magnificamente esculpidas em granito, do falcão usando a dupla coroa.


Na antecâmara do Templo de Edfu existe um pequeno mas belo santuário, de colunas de pedra, conhecido como o “Mammisi” que, de acordo com os conceitos dos egípcios antigos, era a “Casa do Nascimento do deus Hórus”, o falcão divino. Vários rituais eram feitos nele. Os dois principais: o que celebrava a vitória de Hórus sobre Seth e o que celebrava a coroação do próximo faraó egípcio. Hórus tornou-se o “senhor do céu” e os faraós passaram a ser considerados “deus Hórus” vivos, pois se tornavam deuses a serem coroados.


Ali os antigos egípcios davam um festival anual chamado " Festival da Vitória do Filho", comemorando o triunfo de Hórus na batalha final contra o Seth. Conforme os acontecimentos da lenda de Osíris e Seth, a guerra entre o sobrinho e seu tio que matou o seu irmão usurpando o trono do Egito, continuou décadas, e depois de combates árduos, a última batalha aconteceu em Edfu.


Lá também acontecia o grande festival popular chamado "A União Divina " ou “Casamento Sagrado”, celebrado no terceiro mês do verão, quando a estátua da deusa Hathor saía de seu santuário em Dendera e navegava pelo Nilo até o templo de Hórus em Edfu, numa procissão acompanhada por grandes cerimônias. Quando chegava a tarde, no momento do nascimento da Lua, num majestoso ar de alegria e cerimônias, o casal divino abrigado numa barca sagrada e carregado nos ombros dos sacerdotes entrava no templo de Hórus, visitando algumas salas e quartos. Após várias celebrações, eram realizadas as bodas do casal divino. Depois de passarem a noite juntos, Hathor regressava ao seu templo em Dendera, 5 km a sul da cidade de Quena. E claro tudo foi acompanhado por música, canções, danças e sacrifícios.