Os Filhos de Hórus


No início do Antigo Império surgiu a necessidade de preservação dos corpos para a vida no Além. Uma das etapas indispensáveis para que o processo de mumificação tivesse sucesso consistia na retirada dos órgãos internos do cadáver. Por outro lado, era igualmente importante, para a continuidade do bem-estar do morto no além-túmulo, que tais órgãos fossem cuidadosamente preservados. Assim, desde o Antigo Império (2575 a 2134 a.C.), era costume retirar as vísceras do organismo, embebê-las em substâncias adstringentes e betume, envolvê-las em ataduras e colocá-las em quatro vasos ou jarros, chamados de “vasos canopos”.


Os vasos canopos eram feitos de madeira, alabastro, calcário, porcelana, cerâmica ou faiança, tinham tampas de madeira pintada, vinham às vezes acondicionados em estojos também de madeira e eram depositados no túmulo junto ao caixão.


Essa prática generalizou-se no Médio Império. Num complexo ritual do Novo Império, os órgãos humanos dos mortos eram colocados em quatro vasos canopos, pois quatro órgãos em particular tinham uma função mística específica. Esses órgãos eram protegidos por quatro deuses chamados de “os quatro filhos de Hórus”.


As vísceras armazenadas nos quatro vasos eram protegidas por quatro divindades menores, os filhos de Hórus, o antigo (Haroéris). Seus nomes eram Kebehsenuef, Duamutef, Hapi e Imset, os quais tinham a importante missão de proteger, respectivamente, os intestinos, o estômago, os pulmões e o fígado do morto.


Segundo a lenda, eles eram deuses solares, nascidos de uma flor de lótus e resgatados das águas primordiais por Sobek, o deus crocodilo, por ordem de Rá. Eram divindades dos quatro pontos cardeais, pois haviam anunciado nas quatro direções, ou seja, aos quatro ventos, a vitória do pai sobre o deus Seth. Eram protetores do corpo de Osíris e diariamente glorificavam o seu “ba” (alma). Os quatro filhos de Hórus também estavam presentes na “Sala das Duas Verdades”, presidindo, juntamente com Osíris, o julgamento e a pesagem do coração dos mortos. Nesse caso apareciam em pé, emergindo de uma flor de lótus, e ajudavam Anúbis na cerimônia de abertura da boca.


Estes deuses estavam estritamente ligados ao culto funerário, não tendo sido alvo de nenhum culto em templos. Pouco se sabe sobre sua origem, mas já eram vistos como filhos do deus Hórus desde a época do Antigo Império. Nos “Textos das Pirâmides” são mencionados 14 vezes, sendo responsáveis por ajudar o defunto na sua viagem para o Além. No “Livro das Portas” colocam correntes nas serpentes aliadas de Apopi, o inimigo de Ré, que quer destruir a barca solar onde o deus viaja. Alguns textos referem-se a eles como estrelas, surgindo os seus nomes nas listas de estrelas da época do Novo Império.


Foi no decorrer do Novo Império (1550 a 1070 a.C.) que as quatro divindades passaram a ser representadas nos vasos canopos. A partir da XIX Dinastia cada tampa dos vasos canopos passou a ter a forma de um dos filhos de Hórus (anteriormente reproduzia-se a face idealizada do defunto). Cada deus estava também associado a um ponto cardeal e a uma deusa, pois os vasos em si eram identificados com as quatro divindades protetoras femininas: Selket, Neith, Néftis e Ísis, chamadas “as quatro carpideiras divinas”.


A partir da XXI Dinastia, os órgãos passaram a ser mumificados e depositados nos vasos junto com uma estatueta do filho de Hórus feita em cera. Conforme nos explica o famoso egiptólogo Ernest A. Wallis Budge, “No início eles representavam os quatro suportes do céu, mas não tardou que cada qual fosse considerado como o deus de um dos quatro quartos da terra e também do quarto do céu que ficava acima dele. Como o desejo constante do falecido, expresso em suas orações, era poder ir aonde bem entendesse, tanto na terra quanto no céu, tornava-se absolutamente necessário ao seu bem-estar que ele propiciasse esses deuses e se colocasse debaixo da sua proteção, o que só poderia ser conseguido mediante a recitação de palavras de poder diante das imagens deles ou diante de jarros fabricados para representá-los.”, finaliza Budge.


Desta forma, temos a seguinte correspondência:


Imset: era o deus protetor do fígado. Seu vaso canopo tinha cabeça de um homem barbudo e seu ponto cardeal era o Sul. Estava ligado à deusa protetora Ísis.


Hapi: era o deus protetor dos pulmões. Seu vaso canopo tinha cabeça de babuíno e seu ponto cardeal era o Norte. Estava ligado à deusa protetora Néftis.


Duamutef: era o deus protetor do estômago. Seu vaso canopo tinha cabeça de chacal e seu ponto cardeal era o Leste. Estava ligado à deusa protetora Neit.


Kebehsenuef:era o deus protetor do intestino. Seu vaso canopo tinha cabeça de falcão, o animal sagrado de Hórus. Seu ponto cardeal era o Oeste. Estava ligado à deusa protetora Selket.